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sábado, 1 de agosto de 2015

AMOR: On-Off ... amado amor


“Poderoso é o amor, o contentamento/descontentamento é tamanho que fica “quase” impossível comer ou dormir.”
                                                                                                                                        Deijone do Valle


É comprovado pela neurociência que existem áreas específicas do cérebro que são acionadas quando nos apaixonamos, e isto é possível ser verificado através das varreduras de imagens de RM (Ressonância Magnética), que nos permite mensurar e visualizar o cérebro vivo, assim como também, um significativo aumento dos batimentos cardíacos à visão da pessoa amada.

Então? Rolou uma química? Tem fundamento científico.

Poderoso é o amor, esse instinto inato que nos faz olhar alguém e elegê-la nosso amado, é algo que transcende a nossa vã compreensão, esse arroubo quase imprudente na construção de uma paixão, essa experiência imprevisível e deliciosa quer seja consumada ou não.

A nossa arquitetura cerebral foi construída para conter uma avalanche de neuroquímicos capazes de produzir milhares de sensações indescritíveis, de forma quase automática, no sistema límbico, esse centro impetuoso de emoções, com suas conexões diretas com o córtex, principalmente a amígdala (centro emocional) e o hipocampo (memória), e isso pode dar uma explicação sobre nossas lembranças, e emoções fortes, que às vezes são evocadas pelo cheiro, por exemplo, através dos bulbos olfativos, promovendo uma farra de informações, representações sensoriais, eventos e o próprio comportamento.

Veja nosso córtex cerebral com seus profundos sulcos e dobras, com essa quantidade enorme de células nervosas, mais ou menos, cerca de cem milhões em cada seis centímetros quadrados, são bilhões de neurônios, para termos uma ideia, o genoma humano, contém menos genes. Incrível, não?

Meu Deus, somos criaturas milagrosas, principalmente quando nos reportamos ao amor e tentamos entender a natureza da paixão.

Dentro de nós existe uma tempestade de forças, que se entrelaçam entre mal-entendidos, ódio, e outras atrocidades e também o amor.

Matamos o outro, mentimos e traímos, mas também somos capazes de amar, compreender e ser fiel.

Cérebro e mente, genética e neurociência, medos e empatia, como explicar porque amamos tanto?

Vamos caminhar juntos nesse  terreno estranho e ao mesmo tempo conhecido, e ver como o amor afeta a vida de pessoas comuns como você e eu.

Nossa mente é um labirinto complexo, de penhascos, montanhas, vales, despenhadeiros, abismos, precipícios profundos e inimagináveis, isto te assusta?

Mente e cérebro são indivisíveis, não se pode separá-los, é como querer separar a dançarina da dança.

Esta nossa humanidade, nos leva a querer definir e criar interfaces entre nós e outros, decompormos o tempo em retalhos e criarmos conceitos como futuro, presente e passado.

Atribuímos valor com base na raridade, utilidade ou beleza, analisamos, sentimos,  e queremos controlar, enfim sintetizamos e corremos o risco de destruir a essência, sendo mais saudável gostarmos do todo do que meramente das partes.

Nosso entendimento do amor é limitado pela tendência humana de decompor e inventar um conjunto de dicotomias e categorias arbitrárias e hierarquizadas.

Nossa mente campeia em mil atividades celulares e em nível molecular para entender o que é o amor, esse conceito emocional, que na realidade não é apenas composto de sensações, mas um conjunto de funções cerebrais, com suas múltiplas conexões e plasticidade, e que nos sinaliza a disponibilidade ou não da mente humana e cérebro, estarem em constante mobilidade e mudanças de nossos estados mentais, que por sua vez são impactados por experiências que também respondem a estruturas neuroquímicas, carregadas de carga emocional, que se alinham em uma resposta adaptativa de nosso mundo interno e externo e que se encontra em permanente mudança.

Que bom, ter um cérebro plástico para o amor, não?

“Cérebro plástico”, que dá novas respostas, aprende, adapta-se, sente, pensa e nos ajusta em opiniões e atitudes, numa equação básica entre funções da mente, influências ambientais que é igual a comportamento modificado.

Logicamente a matéria-prima para o amor, tem origem nos cinco sentidos, onde o cérebro se encarrega das conexões que podem ser de origem emocional ou social, e o que é espantoso na ativação da rede neuronal, é que alguns tipos de  experiência sensorial, pode mudar para sempre esses circuitos em uma parte do cérebro.

Não entendeu? Imagine uma pétala de rosa, isso ativa as áreas visuais, o cheiro ativa as partes olfativas do córtex (centro da função superior do cérebro, responsável pelas faculdades da memória, linguagem e pensamento abstrato), a maciez e textura da pétala de rosa, aciona as seções do tato, que por sua vez, também acionam diferentes áreas do córtex ao mesmo tempo, reforçando os circuitos neurais entre essas áreas.

Depois que isso acontece, é incrível, qualquer coisa que ativa uma parte da rede, consequentemente vai ativar todas as áreas que tem representações da pétala de rosa.

Essa pétala de rosa pode te fazer lembrar o jardim de uma casa lá da infância e te recordar de que você precisa visitar sua cidade natal. Todos esses tipos de memória resultam de um único estímulo. Maravilhoso, não é? Um poderoso caminho associativo, para estabelecer, formar e recuperar memórias, representadas em muitas áreas corticais diferentes.

Mas, e o tal do amor?

O que é mesmo estar apaixonado?

O que será que nos leva a ter alegrias ruidosas, tristezas profundas e dores inexplicáveis, quando somos consumidos pelas chamas do amor?

Quantos amores... Quantos olhares...

Quando nos apaixonamos, o outro passa a ter um poder e um significado especial, único e intransferível, onde se concentra toda a atenção e esta se dimensiona em lentes de aumento multicoloridas e que distorcem sensivelmente, sutilmente a realidade, transformando-a em uma doce ilusão.

Nossos olhos se deleitam ao olhar o outro, perdendo o sentido de limite e fronteira, é uma experiência universal e que pertence essencialmente a natureza humana.

Construímos em nossa mente um poema de virtudes, e os defeitos e diferenças, estes perdem o poder de incomodar, comprovando o ditado popular: O amor é cego!

A mente fervilha em um turbilhão de intensas emoções, tornando-nos alienígenas, desastrados e inábeis em atitudes e comportamentos, uma verdadeira explosão de  estupidez, que bloqueia nossa sanidade, tornando-nos ousados e paradoxais em nossas expressões de êxtase ou desespero.

Amor... uma montanha russa  de excitação física e psicológica, que flutua entre um estado permanente de necessidade da fusão com o outro.

Os sentidos se movem nas asas da paixão, atropelando o bom senso, mas nem tudo é agonia, o que nos leva também a criatividade, onde nascem os mais belos poemas, canções, histórias de amor, mitos, lendas com heróis e princesas sonhadoras.

E você já experimentou o amor? Essa força avassaladora que nos concede singularidade especial, extrapolando limites e desnudando a alma.

O humor dá mostras de impaciência, ficamos instáveis, sensíveis e irritadiços, é um desejo insaciável de unicidade, é como se perdêssemos momentaneamente o nosso sentido de identidade, desestabilizando as fronteiras do ego, arrepiando a pele ao toque,  e dissecando cada gesto.

A palavra “Amor” vem do sânscrito “Lubh”, que significa “desejar” e naturalmente faz sentido que as emoções e sensações do amor romântico, estejam relacionadas ao desejo sexual e sabe mais o quê? Ao monstrinho de olhos verdes – o ciúme.

Ai... ai... que coisa louca, esse louco amor.

Uma verdadeira enxurrada de estados de espírito, um caleidoscópio de sentimentos que se metamorfoseiam e inundam o cérebro com uma miríade de sensações perturbadoras.

Somos seletivos em nossas preferências, quando cravamos os olhos, vem à flecha envenenada do cupido, tipo choque elétrico de alta voltagem,  que nos atordoa, uma espécie de “amor a primeira ou segunda vista”? Talvez seja o estímulo visual, o ponto de partida para um romance.

O amor é considerado forte como a morte, vivemos e morremos por amor e nossas redes neuronais dão notícia da química que ocorre nos circuitos cerebrais, como a dopamina, noradrenalina, serotonina, tudo isso energizando o cérebro para sustentar a atividade cerebral dos apaixonados, principalmente com o pensamento obsessivo no outro.

O que fazer com essa ciranda viva, saltitante e pulsante que nos assalta sem pedir licença, essa orquestra formada por teias de forças complexas que vasculham nosso sistema cerebral, incendiando com sua trança de  fogo os circuitos neuronais.

É verdade, sentimos uma química amorosa por indivíduos semelhantes a nós, em inteligência, aspecto físico, situação econômica, valores, habilidades sociais, senso de humor, crenças, interesses ocupacionais, temos tendência a sermos atraídos por pessoas que se parecem conosco.

Mulheres gostam de olho no olho e de palavras, muitas palavras e... aquele olhar de ancoragem.

Homens, estes se sentem de certa forma ameaçados ou mesmo desafiados, quando olham diretamente nos olhos. Homens, o que eles precisam é de coragem e falar algumas palavras, não necessariamente um talento linguístico.

Enfim, não importa o quanto os neurocientistas mapeiem o cérebro, vasculhando a psicologia, neurofisiologia e a biologia do amor, eles nunca destruirão o magnífico êxtase e mistério desta paixão e magia, que em algum momento sentiremos, até porque o amor está profundamente arraigado ao espírito humano.

E como sugeriu o espetacular escritor irlandês, C.S. Lewis: “Somos uma semente pacientemente aguardando na terra: esperando surgir uma flor na hora propícia do Jardineiro, subindo no mundo real, o real despertar.

Suponho que toda a nossa vida presente, observada lá daquele ponto, parecerá apenas um sonolento semidespertar. Estamos aqui numa terra de sonhos. Mais o canto do galo está chegando”.


Deijone do Valle
Neuropsicóloga